quinta-feira, 2 de agosto de 2007


Eu te esperava sentada debaixo d'um sol que não acontecia em mim. Nublada, em silêncio, me voltava ao acontecimento da tua presença e me ocupava em olhar a rua e conviver com a tua falta. Eu inteira te esperava aquele dia, como se fosses tu o meu excesso, meu fundo. Esperava-te com o corpo inteiro e continuaria te esperando quando tu chegasses, te sentasses ao meu lado e me tocasses o rosto. Porque havia pouco de ti na tua presença e eu precisava de mais, do que não se alcançava: tu-simbólico, tu-semântico, tu-abstrato. Debaixo daquele sol que não me queimava, esperando, sôfrega, pelo o que não chegaria, compreendi que tudo em mim era feito de falta, que mesmo o meu excesso era o excesso de falta, que, em mim, o que não faltava era muito difícil de perceber. Assim que eu vivia o mundo: olhando, esperando o vazio, desejando o espaço, precisando da ausência.

domingo, 29 de julho de 2007

Lixo e Purpurina.

"Preciso agora da tua mão sobre a minha cabeça. Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do vôo no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e becos de mim, Senhor."

Caio.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

paro à beira de mim e me debruço, não espero nada, não me procuro. não conheço nenhuma paz que me sirva, quero uma paz reinventada, despercebida. para isso, preciso cumprir os exercícios do dia.

1. não olhar por fora dos meus olhos
1.1. não sentir o que não cabe em mim
1.2. desinventar esperas
1.3. desaguar

2. dois desapegos por dia
2.1. desentrelaçar os dedos
2.2. recolher as mãos
2.3. desistir de me enfeitar de dor

3. escrever um telegrama de amor em um fio de arame
3.1. tomar uma posição obliqua na chuva
3.2. deixar que a chuva afine as camadas
3.3. inventar associações entres cores e sons, dar prioridade a tons de cinza e cinza escuro.

exercício extra: amarrar toda parte de mim em mim

quinta-feira, 26 de julho de 2007

"EU QUERIA TER o tempo e o sossego suficientes
Pra não pensar em cousa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido."

Pessoa.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Lygia


'Volto às minhas lembranças que foram se acumulando no meu eu lá de dentro, em camadas, feito poeira. Invento (de vez em quando) o que é sempre melhor do que o nada que nem chega a ser nada porque meu coração pulsante diz: EU SOU EU SOU EU SOU. Meu peito (rachado) continua oco...'


Anão de Jardim.

sábado, 16 de junho de 2007

Lixo e Purpurina / Ovelhas Negras

Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.


Caio.
"Ainda que dentro de mim as águas apodreçam e se encham de lama e ventos ocasionais depositem peixes mortos pelas margens e todos os avisos se façam presentes nas asas das borboletas e nas folhas dos plátanos que devem estar perdendo folhas lá bem ao sul e ainda que você me sacuda e diga que me ama e que precisa de mim: ainda assim não sentirei o cheiro podre das águas e meus pés não se sujarão na lama e meus olhos não verão as carcaças entreabertas em vermes nas margens, ainda assim eu matarei as borboletas e cuspirei nas folhas amareladas dos plátanos e afastarei você com o gesto mais duro que conseguir e direi duramente que seu amor não me toca nem me comove e que sua precisão de mim não passa de fome e que você me devoraria como eu devoraria você ah se ousássemos."
- Caio Fernando.